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Entrevista com Giuliana Maria (Melhor Atriz no Cine PE 2019)

Giuliana Maria recebeu o Troféu Calunga de Melhor Atriz no Cine PE 2019 (crédito da foto: Felipe Souto Maior)

No último dia 04 de agosto, chegou ao fim a 23ª edição do Cine PE, sendo o grande vencedor  da noite, o filme “Espero Tua (Re) Volta” de Eliza Capai. O longa sergipano “Abraço”, dirigido por DF Fiúza e protagonizado por Giuliana Maria e Flávio Bauraqui, saiu com os prêmios de Melhor Filme (Júri Popular), Melhor Trilha Sonora (André Abujamra  e Eron Guarnieri) e Melhor Atriz (Giuliana Maria), além de duas Menções Honrosas para as atrizes Isabel Santos e Rita Maia.

“Abraço” foi patrocinado pelo Sindicato dos Trabalhadores em Educação Básica do Estado de Sergipe (SINTESE) e, em breve, estreará nos cinemas da capital sergipana. Baseado em fatos reais, o filme mostra a articulação dos professores do Estado de Sergipe, em 2008, para não perderem as conquistas alcançadas. Daí, porque eles irão até o Tribunal de Justiça para reivindicarem seus direitos. O Bangalô Cult estará publicando a crítica do filme em breve.

Por enquanto, confiram a entrevista exclusiva com a atriz mineira/sergipana Giuliana Maria que, até o momento,  participou de 14 filmes (9 curtas, 3 longas e 2 videoclipes), além de peças de teatro e peças publicitárias e séries. Foi premiada com o Kikito de Melhor Atriz no Festival de Cinema de Gramado de 2015 por sua atuação no curta-metragem “Herói” e com o Troféu Calunga de Melhor Atriz no Cine PE 2019.

Bangalô Cult- Quem é Ana Rosa, a personagem principal do filme “Abraço” ?

Giuliana Maria- Ana Rosa é uma professora, mãe de duas crianças, tem em torno de 35 anos, sindicalista e itabaianense. Ana Rosa sou eu também em muitas instâncias e ela também é muitas professoras porque esse personagem, efetivamente, não existiu. Ela é um mosaico de depoimentos de professoras que viveram esse momento em 2008, da manifestação dos professores capitaneado pelo SINTESE. É esse campo poético que abraça muitas experiências e a coincidência de todas elas, sendo Rosa uma mulher trabalhadora que tem uma tripla jornada (mãe, professora, sindicalista) e que para isso, precisa de uma rede apoio e quem faz o papel dessa rede é a própria mãe, Lindaura (Mônica Moreira).

Bangalô Cult- Como foi sua preparação para compor essa personagem ?

Giuliana Maria- Tenho uma trajetória de métodos de preparação e esse lugar de me aproximar da vibração da personagem tem duas instâncias: a gente sempre tem um ensaio da preparação de elenco, mas eu já costumo chegar no ensaio com a minha própria preparação. Tem alguns exercícios que eu faço para chegar em ‘dilatação’, em escuta para o trabalho, mas isso depende muito do dia. Ana Rosa mobilizou em mim, o Body-Mind Centering que trabalha com a pesquisa de meus sistemas (sanguíneo, locomotor, entre outros). Para alguém que veio da área de saúde, como eu, isso se comunica muito comigo.

A preparação de Ana Rosa, em ensaio, em jogo com os outro atores, eu tive pouco tempo para trabalhar, pois eu estava estava dirigindo a Escola de Artes Valdice Teles, antes das filmagens iniciarem.  Calhou que meu companheiro Fernando- também ator- passou as férias em Aracaju e eu o convoquei para me preparar. A gente fazia uma leitura da cena e ele propunha vivências e a gente ia descobrindo a desconstrução necessária de Giuliana para a construção de Ana Rosa. Acho que ensaiamos duas ou três cenas, para chegar no coração do personagem. Foi um trabalho primoroso e, no final das contas, eu trabalhei estendendo essa preparação com as atrizes Mônica Moreira e a Rose Ribeiro. Foi um trabalho bem profundo de desconstrução para encontrar as nuances dessa personagem.

Bangalô Cult- Até então, você não havia sido protagonista de um longa-metragem. Como foi viver esse desafio?

Giuliana Maria- Eu disse para o diretor DF Fiúza, durante e após as filmagens e afirmo pra mim todos os dias: Ana Rosa é meu papel mais importante de todos os tempos. Viver uma protagonista num longa-metragem é uma oportunidade incrível! Temos a oportunidade de mergulhar no que é o campo poético, no que é uma vibração dessa figura que vai encampar um discurso e de conduzir essa fisicalidade, materialidade, esse pacote de sensações durante a narrativa, surfando nas curvas dramáticas e toda essa intensidade que existe em todo roteiro. Foi isso que fez com que eu descobrisse muita coisa em minha profissão que eu ainda não havia me dado conta. Foi um desafio, mas também um presente.

Bangalô Cult- Como você acompanhou o festival desde o início, assistindo aos filmes e vendo o trabalho de suas concorrentes, achava que tinha chance de ganhar como melhor atriz ? Ou foi total surpresa como aconteceu em Gramado?

Giuliana Maria- Quando a gente está num festival e a gente está concorrendo, a gente acredita que tem alguma chance. Eu tinha consciência do trabalho que eu tinha feito no filme. Foram apresentados nesta edição do Cine PE, alguns documentários e algumas ficções e os filmes de ficção que tinham atrizes no elenco, os trabalhos dessas atrizes eram de altíssimo nível.  As minhas parceiras, como a Talita, Luíza, Clara são atrizes incríveis. Eu fui abraçá-las e cumprimentá-las, sem pensar muito na questão de competição, porque a oportunidade de estar num festival é a oportunidade de trocar muita experiência com as colegas de trabalho. Mas eu estava, realmente, muito feliz de estar ali. O festival apresentou uma curadoria impecável e, de fato, qualquer uma de nós que levasse o prêmio estaria muito bem representado. Agora, sim, foi uma surpresa. No momento que chamam nosso nome é um frisson, é uma adrenalina e minha fala de agradecimento com o prêmio na mão, foi uma fala muito emocionada porque a Ana Rosa é grande, que traz com ela o depoimento de muitas mulheres.

Bangalô Cult- Acredita que a trajetória dele nos festivais e no circuito comercial seja promissora?

Giuliana Maria– O “Abraço” foi uma grande surpresa, inclusive, para a gente. A ideia inicial era dele ser uma peça institucional por conta do aniversário do SINTESE e ele termina transbordando, esse primeiro objetivo. “Abraço” vai ser distribuído pela O2 Play, então, com toda a equipe que ele acabou reunindo e, agora, com o reconhecimento do público no Festival, com várias professoras que vieram me abraçar após a sessão, percebemos que o filme dialoga muito com o público. Principalmente, com os trabalhadores que estão sendo insultados nesse momento político que estamos vivendo. Por tudo isso, acredito que sim, ele ainda irá alçar voos em outros festivais e quando for lançado no circuito, se forem somente os professores e seus familiares, seremos um sucesso de público.

Bangalô Cult- Quais seus próximos projetos e planos para o futuro?

Giuliana Maria- Acabei de gravar o curta “O Menino Azul” em João Pessoa, dirigido por Odécio Antônio, com a Rendeira Filmes em parceria com a Roda Filmes, com Luiz Carlos Vasconcelos, Nanego Lira, o garoto Téo, que tem previsão de estreia no final desse ano e foi um trabalho muito gostoso de fazer. O cinema da Paraíba está bombando e eu quero estar muito próxima dessa galera para trabalhos futuros. E para o próximo ano, tem um projeto de longa-metragem, também com direção do Odécio Antônio, cujo o nome do filme será “O Chofre”. O roteiro ainda está sendo finalizado, mas eu gostei muito da ideia e é um projeto grande.

No teatro, estou montando meu solo, pois acabo de voltar de Angola, onde fui colher depoimentos de mulheres dentro do tema que estou pesquisando e entendi que esses depoimentos servirão de base para um filme, que devo dirigir. Os projetos concretos são esses e têm outros em fase de amadurecimento.

 

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