Cinema Críticas

Fome de Amor

Haley Bennet em "Estado de Graça" protagonizando "Devorar" (Fonte da foto: IMDB)

Uma das produções mais instigantes, presente na programação dessa 43a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, chama-se “Devorar” de Carlo Mirabella-Davis.  Vencedor dos prêmios de Melhor Roteiro e Melhor Atriz no Festival de Tribeca desse ano, o filme centra na vida da jovem e bela Hunter (Haley Bennet) que goza de uma vida aparentemente idílica com o marido Richie (Austin Stowell), filho único de um milionário. Residindo numa mansão de arquitetura arrojada, com uma vista deslumbrante para um rio, Hunter parece sentir-se bem, cuidando dos afazeres domésticos e preparando receitas exóticas para Richie. Sua rotina solitária, porém, será quebrada com a descoberta da primeira gravidez.

Sem amigas ou contato com parentes mais próximos, a jovem parece não ter outra escolha, a não ser seguir às orientações da rígida sogra Katherine (Elizabeth Marvel) com relação à experiência inédita. Percebe-se a partir daí, que Hunter não está totalmente confortável com a vida que leva e com as pessoas que a cercam. O estado gravídico acentua esse desencaixe familiar e, inesperadamente, ela desenvolve uma alotriofagia (compulsão em comer coisas estranhas como pregos, pilhas, bolas de gude, entre outros). Se no início, os objetos ingeridos apresentam textura lisa e formato arredondado, com o avançar dos dias, as escolhas da jovem tornam-se mais perigosas, colocando em risco a sua vida e, consequentemente, a do bebê.

A partir daí, o roteiro começa a dar pistas do porquê desse comportamento bizarro de Hunter, ao mesmo tempo em que a bolha repressora em que a moça vive, torna-se mais sufocante, por conta da ação do marido e dos sogros em barrar seu distúrbio alimentar severo. Resta a Hunter  se desvencilhar dessa relação tóxica com Richie e acertar as contas com o passado. Mas a saída, não será nada fácil.

O diretor arrisca-se ao abordar um tema tão inusitado e dramático no seu primeiro longa-metragem. Porém, consegue envolver a plateia facilmente, por construir uma atmosfera densa e misteriosa em torno da protagonista, que é muito bem construída e excepcionalmente bem interpretada por Haley Bennet. A predominância de uma paleta de cores fria, esmaecida, potencializa a sensação de apatia de Hunter, ao mesmo tempo que o vermelho, quando inserido em destaque no filme, lembra a vida pulsante que corre nas veias da jovem que tenta a todo custo encontrar uma estabilidade emocional. Ótima produção que nos faz refletir durante vários dias sobre abandono, masculinidade tóxica, violência doméstica e maternidade.

O filme pode ainda ser conferido na 43a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo nos dias 23/10, às 22h, no Cinearte 1 e 26/10, às 14h, no Itaú do Shopping Frei Caneca 2.

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