Cinema Críticas

Michel Franco orquestra mal “Nova Ordem”

Rebeldes em ação no filme "Nova Ordem" que abre hoje a 44a Mostra Internacional de Cinema de SP

O filme, que abre a 44ª Mostra Internacional de Cinema de SP, hoje, à noite, no Belas Artes Drive-In, foi o vencedor do Leão de Prata (Grande Prêmio do Júri) e do Leãozinho de Ouro no Festival de Veneza 2020. Trata-se de “Nova Ordem” do cineasta mexicano Michel Franco que traz uma proposta semelhante (até certo ponto) ao filme “Parasita” de Bong Joon-ho: mostrar as consequências da inversão de poder numa sociedade capitalista, a partir das tensões sócio-econômica-culturais existentes entre a classe trabalhadora e a patronal.

Se na produção sul-coreana, Bong Joon-ho preferiu se aventurar num terreno mais consistente, delimitando a narrativa em torno do microcosmos de duas famílias- uma abastada e outra pobre- que entrarão em conflito por acaso, Franco arriscou-se num terreno movediço, ampliando o espaço da ação para a capital mexicana e mostrando uma cidade em convulsão por conta de rebeldes, majoritariamente, oriundos das classes populares, que saqueiam mansões, executam e sequestram milionários.

Resultado: a narrativa até que se inicia promissora, mas depois dos primeiros 30 minutos de duração, a impressão é que a direção de Franco desnorteou-se completamente, deixando um rastro de superficialidade tanto no desenvolvimento dos núcleos dramáticos de “Nova Ordem” quanto no delineamento dos seus personagens.

É o dia do casamento de Mariene (Samantha Yazareth Anaya) e Alan (Dario Yazbek Bernal). Na mansão dos pais da noiva, transitam uma parte da elite mexicana ligada a negócios escusos e comprometida com o Estado autoritário e os empregados da família. Aparentemente, tudo está em ordem, até que aparece um antigo empregado pedindo auxílio financeiro à matriarca (Patricia Bernal), a fim de que sua esposa seja submetida a um procedimento cirúrgico.

Não conseguindo o montante devido, o ex-empregado apela para Mariene que decide ajudá-lo, mesmo contrariando a família. Junto com o seu motorista, Mariene segue em direção à residência da enferma para levá-la até o hospital e assumir as despesas da cirurgia cardíaca. É nesse ponto de virada, que a história toma um rumo incerto e os rebeldes começam a agir com violência desenfreada por toda a cidade.

Se no início da trama, havia uma nítida linha divisória- ainda que maniqueísta- entre os mocinhos (representantes das classes subalternas) e os vilões (representantes da elite), no decorrer da narrativa vemos uma diluição dessa fronteira. O filme também perde pontos nas sequências envolvendo multidões. Já que, não raro, podemos observar figurantes pouco concentrados na atuação, comprometendo a verossimilhança da cena, bem como uso de planos fechados e cenários pouco naturais dando a impressão de filmagens em estúdio.

Não tarda, o espectador questionar as verdadeiras intenções do diretor, já que Michel Franco evita se aprofundar  no conflito de classes e adota uma visão pessimista sobre o futuro do homem na sociedade contemporânea, onde regimes neofascistas teimam em se alastrar. Não há salvação para os que foram à luta, num primeiro momento; para aqueles que evitaram tomar algum partido e nem para os detentores das grandes fortunas. A tentativa do povo de instalar uma “nova ordem” mostra-se infrutífera e todos tornam-se vítimas do governo corrupto, arbitrário e manipulador.

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