Dança/Teatro Espetáculos

Dança e Fé: os Corpos em Movimento e Celebração dos Filhos das Águas

No Palco Mariano Antônio, os dançarinos rememoram a história de Iemanjá (Foto: Gabriela Rosa)

Texto: Jhennifer Laruska/Fotos: Gabriela Rosa *

No segundo dia do Festival de Artes de São Cristóvão, o palco Mariano Antônio contou com o espetáculo “Sobre as Águas”, dirigido e interpretado por Ramanda Kairos e pelos bailarinos David Santos e Jamile Santos. Às 17h, desta sexta-feira, música e dança permearam o Largo da Matriz. Ao som de “Canto de Oxum”, na voz de Maria Bethânia, o público pôde conhecer a história da Rainha do Mar e dos seres encantados. 

Um dueto entre os bailarinos expressou os movimentos das águas de Oxum, envolvendo a plateia em um clima de magia e sedução e levando ao palco um pouco do mistério do mar. Saias rodadas nas cores azul, branca e dourada foram escolhas precisas dos artistas para saudar Iemanjá. “Ela é aquilo que tudo busca. O que você quiser, que seja bom e próspero, vai ter… sempre esteve ao meu lado”, revelou Ramanda.

Passos apressados e movimentos precisos tomaram conta do palco. O espetáculo trouxe traços da dança africana, relembrou a dinâmica das águas e contou com intervenções no seu decorrer. Vendas pretas cobriram os olhos dos dançarinos por um determinado momento, numa manifestação a favor das águas e das vidas prejudicadas pelo derramamento do petróleo que chegou ao litoral sergipano e de outros estados desde o fim de agosto deste ano.  “Se a gente não cuida das águas, do mar… o que vai ser da gente amanhã?”, reflete a bailarina. 

Entre os espectadores, houve quem acreditasse que Mariano Antônio se fez presente durante a apresentação. Segundo Eduardo Freitas, sentado diante do palco,  “a alma dele esteve aqui através da força da cultura”.

Os figurinos nas cores azul, dourado e branco homenageiam a divindade e os seres encantados (Foto: Gabriela Rosa)

Para quem nasceu com a “dança no corpo” e se considera “filha das águas”, Ramanda Kairos se descobriu discípula logo cedo e acredita que possui a missão e o dom de mexer com a fantasia de cada um através da dança. “Minha viagem com as águas me curou, minha proposta é mexer com o subconsciente, trazer reflexões, encontros consigo mesmo e com o que realmente queremos para nós”. Para ela, “o mar é uma dimensão, é ali que acontece todos os segredos da vida; que o público possa descobrir o seu”.

Idas e vindas marcaram a trajetória de vida dos artistas na dança. Segundo David, foram cerca de nove anos longe do que hoje considera ser a sua essência. “Sem a dança, perco um pouco de mim”, afirma. Bailarino clássico e contemporâneo, David conta que o retorno aos palcos foi motivado por Ramanda. Jamile, por sua vez, diz  que este foi o seu primeiro festival e espera “que venham muitos outros”. 

Foram dois meses de preparação, risos, silêncios e um nervosismo que passou despercebido pelo público.Mais uma etapa da luta dos três bailarinos para viver na cidade que respira cultura, mas que possui “tão poucas oportunidades para os artistas daqui”, como resume Ramanda. Segundo ela, “o que está faltando na dança sergipana é o olhar para dentro”. Mas isso não abala a sua conexão com o seu trabalho, pois a dança é o que acontece quando “a alma cala e o corpo fala”.

*Graduandas do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Sergipe

Compartilhar:

Comentários

Clique para comentar

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Publicidade