Gastronomia Dicas de Receitas

Livro “Panela Sergipana: sabores da terra de araras e cajus” será lançado no Museu da Gente

Por Suyene Correia

Maracujá de Trovoada, Pirambeba, Bufú, Coalhada de Pepino, Café de Quiabo. Esses são alguns nomes de alimentos  encontrados no interior do nosso estado, mas que muito sergipano ainda desconhece. Foi, então, com o objetivo de divulgar essas e outras culturas raras no mapa da culinária local, que Paloma Naziazeno, jornalista aracajuana, filha de um engenheiro agrônomo e de uma assistente social, decidiu viajar pelo “Sergipe profundo” e colher não só esses alimentos- que serviram de ingredientes para receitas exclusivas da chef Seichele Barboza-, mas também histórias ricas em sabedoria e afeto de homens e mulheres da terra e das águas.

O resultado dessa pesquisa, em torno de novos sabores e saberes da nossa terra, pode ser vislumbrado no livro “Panela Sergipana: sabores da terra de araras e cajus” que será lançado no Museu da Gente (em data a confirmar). O projeto que contou com o apoio do instituto Itaú Cultural, através do edital Rumos Itaú Cultural 2017-2018, envolveu além de Paloma e Seichele,  a fotógrafa Melissa Warwick. Ao final, elas percorreram mais de 2 mil quilômetros em solo sergipano, comprovando em suas andanças, que existe sim, uma culinária local que ultrapassa os limites de uma caranguejada.

Segundo Naziazeno, foi inspirada no trabalho da bisavó, avó e tias na cozinha, que ela tomou gosto pela gastronomia e, num ano sabático, decidiu se dedicar à produção de tortas e doces caseiros.  Familiarizou-se não só com o fogão, colocando em prática receitas de suas antepassadas, mas também com profissionais da cadeia produtiva de alimentos. Através do pai, conheceu alguns assentamentos e pequenos agricultores no interior do estado e com a mãe descobriu o maracujá de trovoada.

“Em 2017, conheci Seichele Barboza durante um evento na UFS, ocasião em que ouvi falar do café de quiabo, maxixão e da coalhada de pepino. A partir de então, pus-me a pesquisar sobre esses alimentos, conversando com pessoas do interior de Sergipe e me veio uma vontade muito grande de escrever, para as mulheres que me antecederam: minha avó, minha bisavó e  tias”, diz Naziazeno.

Vendo a possibilidade do projeto que tinha em mente, virar um livro, ela se inscreveu no edital do Itaú Rumos 2017-2018, sendo contemplada no ano seguinte. Para a jornalista, o diferencial do livro “Panela Sergipana: sabores da terra de araras e cajus” é o fato de dar voz às pessoas do campo, muitas vezes invisibilizadas e recuperar culturas quase extintas.

“Ouço muito as pessoas dizerem que Sergipe não tem uma gastronomia própria, mas a gente tem sim, uma gastronomia muito definida, uma identidade, só que as pessoas desconhecem. Acho importante colocar sob o mesmo holofote esses alimentos que são cultivados em pedaços de chão onde tem afeto, mas que tem um jogo político também, porque a terra também é política, ela é um meio de sobrevivência, ela é uma demarcação da vida de determinadas pessoas…e é claro, estamos inseridas dentro de um determinado contexto, onde a alimentação no Brasil está bastante complicada com esse governo. Então, temos programas de governos anteriores que foram extintos e, com isso, a agricultura familiar foi prejudicada”.

Maracujá de Trovoada cultivado por Dona Josefa e, Simão Dias (Foto: Melissa Warwick)

O livro chega para dar voz a mulheres como Dona Josefa de Simão Dias, Dona Cida de Aquidabã e a agricultores como Seu Claro de Poço Redondo e Seu João de Poço Verde, entre outros. Dividido em quatro partes- Terra, Águas, Quintais e Receitas-, nos três primeiros capítulos, o leitor encontrará narrativas daqueles que plantam e mantém vivos os respectivos alimentos inseridos em cada capítulo. Enquanto na Terra, conheceremos o Cambuí, Maracujá de Trovoada, Coalhada de Pepino, Maniçoba, Cabeça de Frade, Cominho e Maxixão, no capítulo dedicado às Águas conheceremos a cultura dos peixes Caboge, Saburica e Pirambeba.

O capítulo Quintais é dedicado à planta Major Gomes, ao coquinho Dicuri ou Oricuri, ao Café de Quiabo, Umbu-cajá, ao doce Bufú e à Cachaça de Capela. Por fim, o livro é finalizado com o capítulo das Receitas criadas por Seichele Barboza especialmente para essa publicação. É possível encontrar “Caboge na Moqueca com Uricuri e Maxixão no Coco”, “Carne do Sol Flambada na Cachaça de Capela”, “Bufú e Pirambeba”, “Crocante de Maniçoba e Vinagrete de Caju”.

Quando questionada sobre a importância da publicação dessa obra, a idealizadora do projeto responde: “acho que ela vem preencher uma lacuna de ausência de produção dentro desse universo de cultura gastronômica sergipana. Temos cursos de gastronomia aqui, formando profissionais que precisam conhecer nossa história. É preciso chamar um pouco a atenção para essa alimentação que nos identifica, esse saber fazer que é um patrimônio imaterial. a gente precisa prestar mais atenção nisso”, declara.

“Panela Sergipana: sabores da terra de araras e cajus” contou com o projeto gráfico assinado por Germana Araújo e ilustrações de Elisângela Queiroz. A tiragem é de pouco mais de 500 exemplares e pode ser adquirido no dia do lançamento do livro no Museu da Gente Sergipana (Av. Ivo do Prado, 398- Centro).

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