Literatura Livros

A Literatura Como Experiência Estética

Por Simone Melo*

Há uma frase famosa de Clarice Lispector que diz o seguinte, “não se preocupe em entender. Viver ultrapassa todo entendimento”. Lendo “O Enterro do Lobo Branco” (Editora Patuá) de Márcia Barbieri, essa frase vinha o tempo todo a minha mente, só que um pouco diferente. Não se preocupe em entender, sentir ultrapassa todo o entendimento.

Sim, porque o livro nos remete a um mundo de sensações, cheiros, sabores, fluidos, miasmas, dores e angústias, cuja apreensão dar-se-á mais pela nossa capacidade de sentir e se emocionar do que pela da compreensão racional. Seu texto provoca-nos asco, faz-nos sangrar, coloca-nos de ponta-cabeça, deixa-nos à beira da loucura, delirando, perguntando-nos, mas o que é isso? Como pode? Onde estamos? O que a autora está querendo dizer? Para onde ela está nos levando?

Por isso, para degustar o texto de Márcia Barbieri em sua inteireza, é preciso desnudar-se das ideias pré-concebidas, livrar-se da literatura bem-comportada, abandonar a busca de respostas e mergulhar no mundo da linguagem, do inconsciente humano e do indefinido.

O narrador de “O Enterro do Lobo Branco” talvez seja o espectro do homem de neandertal que ainda habita o homem contemporâneo, com a sua ânsia de dominar o outro, e em particular, a mulher, sujeitando-a a seus desejos e fantasias, possuindo seu corpo a qualquer preço, mesmo que dele subsista apenas pedaços de carnes e ossos apodrecidos.

Sua loucura talvez seja a de todos nós que arrastamos cadáveres ao longo de nossas vidas, por incapacidade de produzirmos relações de alteridade com o outro.  Sua necrofilia talvez não nos seja tão distante, pois quantas vezes nos apossamos de pessoas e de corpos indefesos em proveito próprio? Seus delírios por acaso não são os nossos que os empurramos para o subsolo de nossas memórias?

Acompanhamos o fluxo de consciência do narrador. Hora confinado no sanatório ou no hospício. Ou quem sabe, numa penitenciária? Tanto faz. O que conta aqui é a cerca, a prisão, o isolamento, o abandono.  Dos pervertidos, dos que alucinam, dos que orbitam planetas desconhecidos, enfim, dos que habitam o não-lugar, mas que tomam vida na literatura e bradam as suas histórias. Ou as de Alice, as de Esther, as de Catarina, as de Agustina, as minhas, de um outro desconhecido ou inexistente.

O texto de Márcia Barbieri quase não apresenta pontuação, apenas o ponto de interrogação, mas invertido, e pouquíssimas exclamações. Essa estratégia, aliada à linguagem com alta voltagem poética, permite ao leitor imprimir um ritmo personalíssimo a sua leitura. No meu caso, fartei-me no alegro e, não poucas vezes, no vivace. Isso não quer dizer que tenha feito uma leitura ágil e linear, muito pelo contrário, frequentemente retomava a leitura de alguns parágrafos, não tanto para entendê-los melhor, mas sim, para apreciá-los mais cuidadosamente.

 Um escritor é, antes de tudo, um leitor. E, no caso de Márcia Barbieri, uma leitora atenta, criativa e apaixonada.  Sua linguagem descarnada, reavivou-me a surpresa que senti ao conhecer a pré-história do realismo fantástico com Juan Rulfo, em seu “Pedro Páramo”. Seu erotismo desabrido e despudorado, fez-me recordar quão estupefata fiquei ao me deparar com “O Obsceno Pássaro da Noite” de José Donoso, bem como os “Contos D’Escárnio – Textos Grotescos” de Hilda Hilst. Os fatos surreais e a atmosfera de estranhamento e mistério na sua literatura, levou-me à “Metamorfose” de Kafka.

Não que sua literatura emule a dos escritores acima citados, porém há um evidente processo de transmudação e, às vezes, uma homenagem a alguns escritores, como se vê no exemplo abaixo, uma referência direta ao poema “O Corvo” de Edgar Allan Poe:

[Haverá um tempo em que todas as sinapses se encontrarão e ocorrerá uma espécie de epifania ou curto circuito universal e todos os cérebros conectados falarão a mesma língua os partidos políticos serão alvejados e ninguém vomitará asneiras inconcebíveis porque os pensamentos serão projetados por uma única mente os santos dormirão tranquilos as promessas serão extintas os deuses serão libertados de seus postos porque ninguém jamais os invocarão anjos soprarão nos ouvidos dos demônios e estourarão seus tímpanos os desejos serão aniquilados e nenhum corvo flertará com os mortos e os bem-te-vis gritarão em seus galhos murchos de arruda NEVERMORE]

Aproveito a citação acima para comentar que a autora inclui entre a narrativa, textos de natureza profética, que falam de um mundo idealizado com uma nítida fragrância nietzschiana, basta ler a epígrafe e estabelecer a conexão entre o começo e final do livro.  Para mim, os textos em colchete, funcionam como um livro à parte, e podem ser lidos como momentos de epifania do narrador. Mais não digo para não diminuir o prazer da leitura e das descobertas.

Por ora, essas foram as minhas impressões sobre “O Enterro do Lobo Branco”. Para encerrar, querem mais uma dica? A autora, em evento sobre os finalistas do prêmio São Paulo de Literatura, afirmou que a literatura é, antes de qualquer coisa, sentimento estético. Essa é uma das chaves para melhor apreciar sua literatura.

“O Enterro do Lobo Branco” é o seu terceiro romance e foi finalista do prêmio São Paulo de Literatura de 2018. É o segundo de uma trilogia que trata do corpo, sendo “A Puta” (Editora Terracota), o primeiro  e “A Casa das Aranhas”, o terceiro a ser lançado ainda este ano.

Márcia Barbieri é paulista, formada em Letras e Mestre em Filosofia. Publicou os livros de contos “Anéis de Saturno” e “As Mãos Mirradas de Deus” (Ed. Multifoco) e os romances “Mosaico de Rancores” (no Brasil, Ed. Terracota e na Alemanha, Ed. Clandestino Publikationen) e “A Puta”. É uma das idealizadoras do Coletivo Púcaro e do canal Pílulas Contemporâneas. Também toca, juntamente, com a escritora Graziela Brum o site www.pinotnoir.art.br , onde seus livros são vendidos.

 *Simone Melo é pedagoga, funcionária pública federal aposentada, leitora onívora e colaboradora do Bangalô Cult

Compartilhar:

Comentários

Clique para comentar

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Publicidade