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“Biografia e Memórias- Narrativas” no FLIARAXÁ 2019 (Parte V)

Vagner Fernandes, Tom farias, Zuenir Ventura e Heloísa Starling conversam sobre Biografia e Memória (foto Simone Melo)

Nossa correspondente Simone Melo também acompanhou o debate em torno de “Biografia e Memórias-Narrativas” dentro da programação do FLIARAXÁ 2019. Participaram da mesa Zuenir Ventura, Tom Farias e  Vagner Fernandes. A mediadora foi Heloísa Starling. Abaixo, segue alguns trechos das falas dos debatedores.

Por Simone Melo*

O primeiro a falar foi o jornalista Tom Farias, biógrafo de Carolina Maria de Jesus (“Carolina: uma biografia” (2018)). Segundo ele, o biógrafo tem que colocar os calçados dos mortos, no caso, do biografado.  Quando questionado sobre como construir o texto do biografado, Farias disse que um ponto importante para ele, em particular, é ter simpatia pelo personagem. No caso de Carolina Maria de Jesus, ele ficou intrigado com o fato daquela mulher negra, de origem extremamente humilde, que viveu num ambiente totalmente alheio à literatura,  ser tão apaixonada pela palavra, pela literatura. Ele ficou impressionado com a trajetória de vida de Carolina que emplacou o “Quarto de Despejo” como um best-seller em 11 países e no final da vida, mas não conseguiu o sucesso com seus últimos livros, morrendo pobre. Para escrever esta biografia, o escritor teve que voltar ao século XIX, descobrindo que o pai dela era araxaense, um homem boêmio e sua mãe, apesar de casada, traiu o marido com o pai de Carolina.

Foram mais de 200 obras sobre Carolina de Jesus, que Tom Farias teve que ler para escrever essa biografia,  sendo que o escritor, até então, ignorava o lado político dela, tanto nas favelas, como nos ambientes em que ela circulava.  Também foi com a pesquisa que, no fim da vida, Carolina estava em conversa com produtores de Hollywood para um possível filme e também em negociação com a editora para uma reedição de “Quarto de Despejo”.

Zuenir Ventura comenta em tom engraçado,  que ele não está no “lugar correto”, já que não se vê como biógrafo, mas sim como jornalista.  A mediadora Heloísa Starling perguntou-lhe como é transformar um ano- referindo-se ao livro “1968- o ano que não terminou”- num personagem ? No que Ventura respondeu: “quando escrevi esse livro, estava, no fundo, escrevendo a biografia sobre uma geração, a minha geração. Um ano tão importante, que até hoje, a gente sofre e vive as marcas desse ano”. Ainda sobre o livro, Zuenir disse que quis registrar esse ano, porque vivemos num país que sofre de amnésia crônica.  “Foi um ano importante não só pra o Brasil, mas para o mundo todo. É uma geração que se entregou a uma causa pública”.

Ventura revelou que tentou fazer a biografia de Glauber Rocha, chegando a viajar para Portugal, visitando a casa que Glauber morou, além de reunir um material de pesquisa considerável. Só que ele deixou esse material dentro do carro, que foi roubado e aí, depois de perder tudo, ele se lembrou que Glauber era místico, exotérico e  pensou: será que o Glauber  não está querendo que eu faça a biografia ? E acabou desistindo do projeto.

Vagner Fernandes, biógrafo de Clara Nunes (“Clara Nunes- Guerreira da Utopia” (2007)) abriu sua fala, agradecendo à organização pelo convite e chamando a atenção para o fato dele e Tom Farias serem dois suburbanos de Realengo e terem trabalhado com Zuenir Ventura na mídia impressa. Segundo ele, não é o biógrafo que escolhe o biografado,  sim, são escolhidos por eles. No caso de Clara Nunes, ele tinha uma relação muito forte com a personagem, por conta de suas memórias afetivas. Ao mesmo tempo, intrigava-lhe o fato de Clara ser uma personagem mítica que encantava tanto as pessoas do povo como da elite. Tudo isso despertou-lhe a curiosidade de saber mais sobre a vida da cantora mineira. “Tive um trabalho árduo, porque ela sempre preservou sua privacidade. Se por um lado, o viúvo Paulo César Pinheiro deu-me toda a liberdade para escrever, por outro lado,  tive dificuldades com a família da cantora”.

Ainda que Paulo César Pinheiro ter apontado algumas coisas no livro que ele não gostava, não censurou o trabalho do biógrafo. Vagner Fernandes disse que Clara Nunes é um personagem atemporal. “Se você ouvi-la hoje, você não acredita que ela não exista mais, pois o tipo de música que ela canta, ainda hoje, fala muito aos corações e mentes. Ela lutou muito contra a intolerância religiosa, o preconceito étnico-racial”.

Fernandes ainda acrescentou que quando resolve fazer uma biografia, ele sente necessidade de mostrar a complexidade do ser humano, as dimensões humanas do biografado, não se preocupando muito com as questões míticas. Quanto ao trabalho de pesquisa atenta para o fato de não ouvir apenas os amigos, parentes, mas ir atrás de documentos, registros, para confirmar os fatos. E contou o episódio da certidão de óbito do rapaz que foi morto pelo irmão de Clara Nunes. Por pouco ele não teria acesso à certidão de óbito, pois o cartório que guardava o documento, estava incinerando material de alguns arquivos, dentre os quais essa valiosa certidão. Vagner chegou ao local, poucos minutos antes.

Também teve que se debruçar sobre o processo de sindicância que foi aberto na época da morte da cantora, contendo 715 páginas. Só assim teve condições de compreender como se deu todo o processo cirúrgico e hospitalar  pelo qual a cantora foi submetida.

Sobre “acidentes de trabalho”, Tom Farias contou uma história parecida com a de Zuenir Ventura. Quando estava escrevendo a biografia de Carolina Maria de Jesus, praticamente na metade do livro -ele define, a priori, o número de páginas que o livro terá-, seu computador pifou com todos os arquivos e ele teve que começar o trabalho do zero. Ele disse que quando alguém vai pedir orientação para escrever uma biografia, ele diz para a pessoa desistir, porque é um trabalho muito difícil, solitário, como se jogar num abismo e não encontrar nada lá embaixo. A cada biografia que escreve, porém, Farias sai diferente. Com Carolina Maria de Jesus, ele acha que “se humanizou” nesse processo de construção da história dela.

Finalizando o debate,  Zuenir Ventura falou de um livro de perfis que ele escreveu (“Minhas Histórias dos Outros” (2005)). Ele disse que o perfil é muito usado pelo jornalismo e que, na verdade, quando ele foi fazer esse perfil, ele queria falar dele mesmo, mas para não parecer muito narcisista , ele decidiu escrever sobre os outros. Apesar de no perfil, o escritor fazer um esforço muito grande para condensar traços que aparentemente não se vê do personagem,  é mais leve que a biografia, não exige uma apuração e investigação características da biografia e, sim, a apreensão de alguém pelo olhar de quem está escrevendo.

*Pedagoga, funcionária pública federal aposentada, leitora onívora e colaboradora do Bangalô Cult

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