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Debate sobre Democracia e Poesia ao Pé do Ouvido Abrem Salão de Literatura do FASC 2019

Roda de Conversa "Observatório Democracia em Pauta" no FASC 2019 (Foto: Victor Santos)

Texto: João Victor Vasconcelos/Fotos: Victor Santos *

A primeira atração do Salão de Literatura José Augusto Garcez, na tarde de ontem (14/11), dentro da programação do Festival de Artes de São Cristóvão (FASC), foi uma roda de conversa sobre o “Observatório Democracia em Pauta”, grupo de pesquisa fundado há um ano na Universidade Federal de Sergipe. Ao longo de uma hora, três professores da UFS – Frank Marcon, Fernando Sá e Eduardo Nunes – debateram também sobre a história das políticas públicas para a cultura no Brasil.

Após relato das ações realizadas no primeiro ano do Observatório da Democracia, fundado em agosto de 2018, o professor e doutor em Antropologia Frank Marcon iniciou a roda de conversa problematizando o conceito de democracia, que para ele passa por uma disputa de significados. Segundo Marcon, o atual Governo Federal, assim como governos de alguns estados, são anti-democráticos. “Esse ataque [do governo] parte de princípios antidemocráticos porque ataca a educação com o corte de recursos, por exemplo”.

O professor e também doutor Fernando Sá, do curso de História, dedicou seu tempo para levantar questionamentos a respeito de como as políticas públicas para a cultura foram feitas na história do Brasil Republicano, afirmando que, atualmente, há um maior descaso com a cultura até mesmo do que na Ditadura Militar, quando o FASC foi criado. Houve também grande crítica ao fato de a Secretaria de Cultura do Governo Federal ter sido transferida para o ministério do Turismo, o que tornaria a cultura como algo mercadológico. Além disso, Fernando Sá destacou a importância de se fazer esse tipo de debate em um grande evento popular como o FASC.

“Eu penso que a gente tem que vivenciar a cultura, mas também temos que refletir sobre a cultura. O espaço hoje proporcionou nós refletirmos sobre a prática e financiamento cultural, e sobre a desconstrução que o atual governo tem feito com relação a Cultura, Ciência e Educação. O debate é fundamental porque nós precisamos construir um pensamento crítico de resistência à barbárie que atualmente estamos vivendo no Brasil”, argumentou Fernando Sá.

Já o professor Eduardo Nunes,  do curso de Dança, afirmou que há uma vontade deliberada do Governo Federal para que a população perca a noção da importância da cultura. “Os principais problemas que nós temos hoje são de ordem cultural. Com essa falta de investimento no futuro as pessoas vão esquecer o que é cultura”, problematizou. Nunes lamentou ainda a ausência do público no debate – cerca de vinte pessoas compunham a plateia – e fez uma autocrítica enquanto artista. “A gente tem que pensar de que forma nós podemos chegar na base da sociedade , pois mesmo sendo poucos, temos uma força”.

A Profa. Margarida Teles e seus alunos promoveram “Palavreado Prosa e Poesia ao Pé do Ouvido” (Foto: Victor Santos)

Palavreando

A segunda atração do dia foi uma exposição do trabalho realizado pelos alunos da professora Margarida Teles, também da UFS, intitulada “Prosa e Poesia ao Pé do Ouvido”. Neste evento, o público ouviu textos literários declamados pelos estudantes por meio de um objeto confeccionados por eles: o palavreador.

A equipe liderada pela professora Margarida Teles entrou animada no Salão de Literatura. Trajando roupas coloridas e tocando músicas, os alunos animaram o público com poesias e prosas conhecidas e inéditas. Antes de começar a parte prática da exposição, Teles explicou qual é o objetivo do trabalho desenvolvido por eles. “Nós levamos a prosa e poesia de forma diferenciada. Através deste instrumento, o palavreador, a gente compartilha a poesia com mais de uma pessoa. O nosso diferencial é que a gente declama a poesia diretamente ao pé do ouvido. Nós oferecemos esse trabalho nas praças, nas escolas e em outros espaços”, detalhou.

Ao observar o palavreador, os espectadores ficaram curiosos para entender. Ele funcionava e logo os deixavam encantados com o que ouviam. Em uma ponta do instrumento, os expositores declamavam poesias e suas vozes percorriam os canos de PVC até chegar com quase nenhum ruído ao ouvido dos que se emocionavam com a sensação e ficavam encantados com o que ouviam.

Dênia Almeida, aluna do curso de Letras/Espanhol da UFS, conta como as pessoas reagem ao ouvir as poesias declaradas. “Os palavreadores são feitos com material reciclado e com o objetivo de aproximar as pessoas. Atualmente, elas não se olham e nem conversam mais, então quando você faz uma poesia que toca no ouvido das pessoas elas dizem que é como se a gente tivesse falando dentro delas. Tanto elas se emocionam, como a gente também. Isso pra nós é muito gratificante porque a gente sente que nosso trabalho de resgatar a poesia está sendo bem realizado”.

O Salão de Literatura José Augusto Garcez homenageia o poeta, museólogo e escritor sancristovense que fundou o Movimento Cultural de Sergipe na década de 1950. Ao longo dos próximos três dias do FASC, neste espaço vão ocorrer ainda saraus, recitais de poesia, palestras e oficinas com vários artistas locais e nacionais.

*Graduandos do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Sergipe

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