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“Democracia: Realidade e Ficção” é debatida no FLIARAXÁ 2019 (Parte IV)

Heloísa Starling, José Eduardo Agualusa, Sérgio Abranches e Afonso Borges (foto: Simone Melo)

Ainda na quinta-feira, Simone Melo acompanhou, no auditório do Cine Teatro no Tauá Grande Hotel,  o debate em torno do tema “Democracia: Realidade e Ficção”, que contou com a mediação de Afonso Borges e os palestrantes Heloisa Starling, José Eduardo Agualusa e Sérgio Abranches. Confira, abaixo, o resumo do debate.

Por Simone Melo*

O sociólogo Sérgio Abranches falou das mudanças que estão acontecendo no Brasil e no mundo, no que diz respeito à democracia. Segundo ele, estamos passando por um processo em que as placas tectônicas do mundo inteiro, da sociedade global estão se movendo em alta velocidade e produzindo tremores, mudanças de morfologia, destruindo coisas e criando coisas novas.

“A democracia está em transformação hoje e frustra os cidadãos porque não consegue com os instrumentos que ela tem hoje, prover o mesmo grau de conforto com que provia no passado, porque as estruturas que fornecem a democracia, os recursos, os instrumentos,  as possibilidades de realizar a felicidade humana, eles estão em crise.  Há hoje uma crise em todo mundo, com relação ao poder de produção e transação de mercadorias, estamos no ápice dessa mudança, dessa transformação humana. Vivemos hoje, uma democracia líquida, frágil, difícil de defender. Ao mesmo tempo ele pergunta: ‘a democracia pode acabar? Não tenho palpite, mas tenho esperança que ela ressurja sobre novas formas'”.

Depois, ele fez a ponte com a literatura, dizendo que “a gente no Brasil escreve muito bem sobre a falta de Democracia, principalmente na época da Ditadura, mas não temos publicações sobre o auge da Democracia.  Fiquei me perguntando, diante dessa afirmação de Abranches, se isso não se deve ao fato de termos pouco tempo de respiro democrático.

Heloísa Starling como cientista política e historiadora, fez uma análise muito pelo viés histórico. Ela disse que a história trata de fatos. Ainda que existam interpretações, versões, não tem como deturpar os fatos, fraudar os fatos, por mais difícil que seja encontrar esses fatos, que ela coloca como verdade, os historiadores têm esse papel de encontrar os fatos em documentos e com as pessoas que viveram a história. A verdade sempre acaba, em algum momento sendo restabelecida. No entanto, há uma tentativa sistemática de se fraudar a História no Brasil.

Depois, Starling falou sobre a literatura. Disse que as distopias nos ensinam a ver mais intensamente a nossa realidade. “A ficção nos possibilita a compreensão da realidade e ela é ardilosa, porque ela faz com que as palavras saiam do seu lugar convencional, para nos mostrar o que está ocorrendo ao lado, que talvez já esteja ali, mas que ainda não vimos”. Ela disse que nós não investimos na cultura política, que investimos apenas nas nossas instituições democráticas e talvez, por isso nossa democracia se mostre tão fragilizada.

Para ela, nenhuma instituição democrática se defende sozinha e, hoje, as artes, a imprensa e as universidades públicas correm perigo, diante dessa Democracia ameaçada, dessa instabilidade democrática. Ao mesmo tempo que temos uma sociedade histórica, que temos orgulho através das lutas de conjurações (inconfidência mineira, a resistência dos negros nos quilombos), temos um passado muito triste que é a escravidão.

Agualusa disse que a ficção tem um papel muito importante em aproximar as pessoas. Quando lemos um livro, um romance, nos colocamos na pele do outro (narrador, personagem). Esse exercício de alteridade é que nos aproxima do outro. Em momentos de crise, de dificuldade, essa aproximação  é de fundamental importância. Eu penso que os ditadores, ainda que sejam grandes leitores, não são, normalmente, grandes leitores de ficção, pois não conseguem construir essa empatia com o outro, com o diferente. Tenho a convicção de que a ficção melhora as pessoas e nos ajuda a reconhecer no outro, nós próprios e, assim, contribui para fortalecer a democracia.

O movimento independentista, o movimento nacionalista, em Angola, começou com a literatura, com a poesia. Esse movimento começou a se organizar por ocasião de movimentos literários, festas literárias e a partir daí, houve a organização política até o movimento de luta armada que conseguiu que Angola se tornasse independente.

*Pedagoga, funcionária pública federal aposentada e colaboradora do Bangalô Cult

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