Literatura Entrevistas

Entrevista com Camila Hion e Rodrigo Lobo do selo treme~terra

(Crédito: site do selo treme~terra)

Como complemento à matéria Plaquetes, uma alternativa para publicação impressa (leia a matéria aqui) o Bangalô Cult entrevistou Camila Hion e Rodrigo Lobo, editores do selo independente treme~terra, fundado pela dupla em 2016 e com sede em São Paulo. Camila é paulista, graduada em Artes Visuais pela Unesp e atua não só como editora, mas também como educadora. Já Rodrigo é baiano, tradutor e doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo. A entrevista foi realizada por email.

 Como surgiu a ideia de criar o Selo treme~terra? 

– O selo foi criado em 2016. A ideia, inicialmente, era circular os nossos próprios trabalhos sem precisar de intermediários como editoras, galerias, livrarias etc. Com o tempo, alguns amigos começaram a nos enviar propostas para publicação e, em seguida, passamos também a convidar e a ser procurados por autores e artistas diversos. A ideia sempre foi experimentar formatos, o que nos fez trabalhar com papel, tecido, carimbos, tipos diferentes de impressões, datilografia e arriscar inserir, no jogo de significação das publicações, objetos estranhos como anzóis, cordas, alfinetes ou folhas. Também nunca houve intenção de focar em algum tipo específico de texto ou arte: publicamos fotografias, ilustrações, poemas, prosa de ficção, ensaios, traduções, etc.

Como se deu a adoção do formato plaquete?

– As plaquetes ganharam força no nosso catálogo a partir de uma série de zines chamada Quem é a bola?, que convida poetas, artistas e filósofos a escreverem textos sobre futebol e que busca ser/emular pequenas revistas de esporte, rápidas de serem feitas, fáceis de serem transportadas – e baratas. Todos os autores são estimulados a também trabalharem o seu texto visualmente (mesmo quando não são artistas visuais), sobretudo por meio de colagens, recortes, intervenções em fotografias – como foi feito, por exemplo, por Mariana Ruggieri (que é poeta e pesquisadora de literatura) no quarto volume da série, chamado A bola é que são elas, que trata do futebol feminino na história do esporte e na história de vida da autora. A pesquisa de Mariana foi textual e visual e ela foi aos arquivos de imagens das mulheres em campo pelo mundo e promoveu diversas intervenções nas fotografias, um aspecto que dialoga muito com a tradição dos zines punks, por exemplo.

Volume 6 da série de zines “Quem é a bola?” (fonte: site do selo treme~terra)

Em seguida, iniciamos uma coleção chamada Cordões, que adota um formato próximo ao do cordel nordestino (que é, aliás, a mais antiga e bem sucedida cena de publicação independente do Brasil, lá bem longe dos circuitos recentemente criados com feiras de arte concentradas sobretudo em São Paulo) e que procura publicar ensaios de autores nascido no Nordeste. Desse modo, pode-se dizer que zines e cordéis estavam e estão em nosso horizonte quando pensamos e produzimos plaquetes: de um lado, a tradição e a forma punk/urbana de produzir e espalhar pensamento e arte; do outro, a tradição e a forma sertaneja de produzir e espalhar pensamento e arte.

Como são dos confeccionados os livros da treme~terra?

– Todos os nossos livros são impressos e montados por nós mesmos, em casa. Eventualmente, sobretudo quando lançamos livros novos, convidamos os autores para participarem do processo de montagem junto com a gente. Sempre foi nossa intenção envolver o autor no processo artesanal, na feitura do livro, tirar dele a ideia de que seu papel é só criar conceitos, narrativas, poemas, imagens – quereremos que o autor crie objetos, os objetos sem os quais seus conceitos, narrativas, poemas e imagens não poderão circular, ser tocados. No primeiro evento que promovemos, em São Paulo, organizamos oficinas em que os autores lançados ensinavam também aos leitores o processo de fabricação e montagem do livro – no fim, quem fazia a oficina levava pra casa um livro feito por ele mesmo, um livro que, aliás, podia ser totalmente diferente do que estávamos lançando, já que muitos leitores alteravam a ordem das páginas, inseriam seus próprios textos ou outros objetos estranhos na obra.

Quais as possibilidades que vocês visualizam com o formato plaquete que não encontram nos formatos mais tradicionais de produção de livros?

– As plaquetes resolvem diversos problemas que teríamos com o formato tradicional de livro. Em casa, não temos uma estrutura ou mesmo um espaço que nos permita lidar com volumes muito extensos, por exemplo – daí que a adoção da plaquete foi necessária para que mantivéssemos a produção inteiramente caseira e artesanal como queríamos desde o início. Além disso, a plaquete resolve ou ao menos ameniza os impedimentos financeiros, já que, com o livro, teríamos que lidar com tiragens maiores impressas em gráficas e coisas assim, o que significa investimentos altos sem garantia nenhuma de retorno. Portanto, a plaquete possibilita que a fabricação e a publicação dos livros não estejam restritas àqueles que possuem espaço ou dinheiro sobrando, que é a maioria da população brasileira, aliás. A gente acha que a plaquete é o formato ideal para lidar com o precário – não se acomodando dentro dele, mas assumindo, de modo criativa, as limitações que nos são impostas, tornando a sua simplicidade uma forma de elegância.

Como editores independentes, qual ou quais são os principais desafios que enfrentam?

– Há problemas de circulação, de reconhecimento, de repercussão, de grana, de visibilidade. O maior desafio, contudo, tem sido continuar fazendo os livros, materialmente mesmo. Pra resumir, é o seguinte: falta tempo. A produção caseira e artesanal é vagarosa, cheia de erros e busca por soluções, pede descanso pras mãos e pro juízo, são dias inteiros para produzir cinco exemplares, coisas assim – e a nossa proposta de convidar os autores para fazer os livros conosco esbarra no cotidiano, no transporte público, nos modos de vida e na imensidão de São Paulo. Os regimes de estudo e trabalho exigidos por nossas outras atividades (que são rentáveis, ao contrário da editora) impedem que nos dediquemos como gostaríamos à criação e edição das nossas publicações. Editar de forma caseira e artesanal, independente de verdade, é um meio para uma experiência distinta do tempo – e como a sociedade que escolhemos construir não quer que ninguém tenha tempo para nada além do trabalho (no sentido do emprego, da produção submetida ao interesse de um patrão e de um mercado), é cada vez mais difícil se ocupar livremente, da forma como acreditamos que se deve levar pra frente esse ofício da edição.

Diante disso, em 2020 estamos nos juntando com a editora É Selo de Língua para circular uma série de publicações curtas, de uma página, via correios, buscando também sair do circuito viciado dos algoritmos, estabelecer um contato menos mediado pelo likes distribuídos via grandes empresas e por reações instantâneas e apressadas com os leitores. O projeto se chama CHEIA e vai funcionar por meio de assinaturas, durando pelo menos seis meses.

Compartilhar:

Comentários

Clique para comentar

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Publicidade