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Leia Mulheres Glória-SE comemora 1 Ano de Atividades

Renata de Castro (blusa branca, no centro) ladeada por Anne Marcelle, Andrêzza Castro, Iasmim Ferreira, Marília Dantas e Daynara Côrtes do Leia Mulheres Glória-SE (foto: Renata Naiara)

Foi no dia 07 de dezembro, que retornei a Nossa Senhora da Glória, depois de uma década sem visitar o município sergipano, conhecido como Capital do Sertão. Se para a maioria dos moradores da cidade que frequentaram a feira naquela manhã ensolarada, a data parecia ser mais uma no calendário corrente, para um grupo de amigas- Andrêzza Castro, Daynara Côrtes, Iasmim Ferreira, Orleane Couto e Anne Marcelle-  era um dia especialíssimo, pois marcava o 1º ano de atividades do Leia Mulheres Glória-SE.

Atendendo a um convite de Daynara Côrtes, uma das organizadoras do coletivo, além de professora da rede particular de ensino e mestranda do Programa de Pós-Graduação em Letras pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), decidi acompanhar de perto essa 12ª edição comemorativa do evento que homenageou a escritora carioca, radicada em Aracaju, Renata de Castro. Excepcionalmente, num sábado à tarde – os encontros do Leia Mulheres Glória acontecem, geralmente, no primeiro domingo de cada mês- tive a oportunidade não só de conhecer a poesia erótica produzida pela homenageada, como também de trocar ideias com ela sobre a literatura contemporânea feita por mulheres Brasil afora. 

A movimentação em torno do coreto da praça Filemon Bezerra Lemos, no centro da cidade, onde o grupo de amigas se reúne, mensalmente, começou por volta das 15h, meia hora antes do horário previsto para o início da edição de aniversário. Daynara, Iasmim e Marília Dantas- essas duas últimas, as mediadoras da tarde- munidas de livros, uma mesa e quitutes deliciosos, foram harmonizando o local para a chegada do público. Abriram uma esteira no chão, onde depositaram alguns livros já lidos no evento ao longo do ano e outras potenciais obras a serem discutidas em 2020, ao mesmo tempo em que arrumavam a mesa para a confraternização ao final da atividade.

Assim que Renata de Castro chegou à cidade, cerca de 30 pessoas- entre alunos do ensino médio da rede pública municipal de ensino, assíduos frequentadores do Leia Mulheres Glória-SE e novos agregados-, acomodaram-se na arquibancada localizada próximo ao coreto e ouviram atentamente as explicações das mediadoras, bem como os poemas do livro “O Terceiro Quarto” recitados pelos alunos de Iasmim Ferreira.

Parte do público presente à 12a edição do Leia Mulheres Glória-SE (Foto: Renata Naiara)

Ao final da apresentação, o público teve a oportunidade de tirar dúvidas diretamente com a poeta, não faltando questionamentos sobre seu processo criativo, sobre poesia erótica e o interesse dos leitores  pela produção literária de autoria feminina. Percebi que em certos momentos, Renata de Castro emocionou-se com os depoimentos de alguns alunos, sobre o poder da leitura em suas vidas. Não é para menos. Qual escritora não ficaria lisonjeada e comovida, ao escutar de um adolescente que a sua poesia o estimulou a escrever também?

Sobre o Leia Mulheres

É parece que o projeto Leia Mulheres Glória-SE já está fazendo história. Ele é um dos 105 grupos formados por mulheres leitoras/escritoras que incentivam a leitura em cidades brasileiras com foco na produção literária feminina. Porém, antes de chegar ao Brasil, em 2015, e ser disseminado por Juliana Gomes e as amigas Juliana Leuenroth e Michelle Henriques, que primam pelo encontro presencial em livrarias e espaços culturais, o projeto foi criado em 2014, pela escritora e crítica inglesa Joanna Walsh. Ela propôs o projeto #readwomen2014 (#leiamulheres2014) que consistia basicamente em ler mais escritoras.

Segundo Daynara Côrtes, a intenção não é institucionalizar o processo, mas isso mostra o engajamento  particular de Juliana Gomes com a literatura, com a questão da produção e divulgação. “O Leia Mulheres não se propõe ser institucionalizado. É um clube de leitura alternativo, autônomo, que se desloca desses compromissos ligados às instituições consolidadas e tem como regra geral, ser dirigido somente por mulheres e difundir a literatura de escritoras brasileiras e estrangeiras”, explica.

Em Nossa Senhora da Glória, a ideia de formar o clube de leitura partiu de Iasmim Ferreira. Era o ano de 2018, ela ingressara no mestrado acadêmico em Letras da UFS, na área de Literatura e Recepção, e conflitos em torno da pesquisa que abraçara no Programa de Pós-Graduação, levaram-na a montar um clube de leitura, no qual as pessoas tivessem acesso aos textos literários de forma democrática.

“Fiz uma lista de pessoas interessadas em literatura, montei um grupo de whatsapp, comecei a pesquisar clubes e conheci o Leia Mulheres. Fiquei encantada com a proposta e em 09/12/18 nos reunimos na casa de Daynara Côrtes. Fizemos uma lista de autoras a serem lidas e eu e as três mulheres que lá estavam: Orleane, Daynara e Anne Marcelle (que saiu do projeto há pouco tempo) tornamo-nos mediadoras. Daí, começamos as divulgações em redes sociais, nas rádios locais e nas escolas”.

Iasmim conta que uma das prerrogativas do grupo de Glória é a ocupação dos espaços públicos, dando prioridade a Praça do Coreto, o que representa um emaranhado de objetivos e conquistas. “Preocupamo-nos com o acesso à leitura, a visibilidade da autoria feminina, o protagonismo das mulheres na condição de leitoras/mediadoras, a ocupação dos espaços públicos pelo povo sem a institucionalização propriamente, pois a literatura, parafraseando Jacques Derrida, é uma estranha instituição, que não é institucionalizada”.

Segundo Daynara, o planejamento dos encontros deu-se mediante a escolha das escritoras e o critério principal foi a afinidade que cada uma tinha com determinadas autoras. “Por exemplo, meu interesse era contemplar autoras negras, porque trabalhei na graduação e estou trabalhando no Mestrado com os debates étnico-raciais. É um tema que sinto muito prazer em trabalhar e também procurei contemplar autoras comunistas por questões particulares. Acho que são narrativas importantes que merecem ter uma visibilidade”, completa.

O primeiro encontro do Leia Mulheres Glória- SE debruçou-se na obra poética “Olhos D’Água” de Conceição Evaristo. Depois desse primeiro encontro, com o trabalho de divulgação feito pelas organizadoras, outras mulheres começaram a se aproximar do grupo, a exemplo de Andrêzza Castro. Em fevereiro, o debate foi em torno da obra “A Teus Pés” de Ana Cristina César (março); seguida de “Tempo de Exílio” de Ana Montenegro; “Sejamos Todos Feministas” de Chimamanda Adichie (abril); “Dança no Espelho” de Christina  Ramalho (maio), “Sementes de Girassóis” de Izabel Nascimento (junho), “Rútilo Nada” de Hilda Hilst (julho); “A Palavra e o Dia” de Vera Duarte (agosto);  “O Conto da Aia” de Margaret Etwood (setembro); “A Casa da Coruja Verde” de Alina Paim (outubro), “Meu Sonho é Escrever” de Carolina Maria de Jesus (novembro).

De acordo com Daynara Côrtes,  a mediação dos encontros acontece sempre sobre a responsabilidade de uma ou duas componentes do grupo gloriense, não obstante, há a presença da escritora quando sergipana e também são convidadas pesquisadoras que estejam pesquisando sobre a autora do mês para contribuir no debate.

O que chamou a atenção do público presente à edição comemorativa de 1º ano do Leia Mulheres Glória-SE foi a participação orgânica de estudantes ao encontro. Alunos e alunas da Escola Municipal Antônio Francisco dos Santos declamaram e interpretaram os poemas de Renata de Castro, além de cantarem e tocarem “Triste, Louca e Má” do grupo Francisco el Hombre. Para Iasmim, na condição de professora, foi uma das experiências mais lindas da docência.
Douglas e Iasmim recitando um poema de Renata de Castro (foto: Suyene Correia)

“Convidei os alunos e alunas em sala de aula, marquei um encontro fora da escola- na casa de Marília Dantas-, e lá entregamos os poemas. Os estudantes leram, identificaram-se e começaram ‘a tirar o poema de dentro’. Como costumo dizer, ‘a declamação vem do espírito do/a leitor/a através dos escritos literários’. Deixei cada um livre para ensaiar sozinho com algum colega e só nos reencontramos no dia  da apresentação. Foram declamados os seguintes poemas: ‘O Terceiro Quarto’ (declamado por Evilly), ‘Chocolate’ (recitado por Suelen), ‘Varal’ (declamado por Danielly e Ellen), ‘Ofício’ (declamado por mim e Douglas) e outro poema sem título (declamado por Beatriz)”.

Quando questionada sobre como avalia a participação do público nesse primeiro ano de existência do Leia Mulheres Glória-SE, Iasmim é enfática: bastante satisfatória. “Em termos quantitativos, normalmente temos de 15 a 20 pessoas. Em junho, com a junção cordel e forró, tivemos 70 pessoas. Em outubro, houve contação da história de ‘A Casa da Coruja Verde’ pela profa. Bethânia. Com isso, atraímos 40 crianças e mais 10 adultos. Em termos qualitativos, há uma variedade de público, nem sempre as mesmas pessoas vão. Há alguém novo, que não conhece o Leia e passa a conhecer naquele momento. Isso é de grande valia para nós mediadoras, pois a literatura de autoria feminina vai ganhando mais espaço a cada novo/a leitor/a”, diz.

Agora, concluído o primeiro ano de existência, a expectativa para 2020 é de o projeto alcançar mais mulheres lendo outras mulheres, mais mulheres sendo lidas. “A principal perspectiva do grupo é não deixar esfriar, é pôr fogo nos corações pela literatura, é quebrar as barreiras que nos são impostas cotidianamente por sermos mulheres, é um dar as mãos de pura sororidade e de ficção”, conclui Iasmim Ferreira, membro da Academia Gloriense de Letras.

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