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O Mercado de Livros em Tempos de Pandemia

Por Ana Paula Rocha*

A primeira pandemia do século XXI – e, espera-se, a única – é protagonizada pelo Covid-19, acrônimo do nome completo em inglês da enfermidade, COrona VIrus Disease 2019. Se a escolha fosse por um nome francês, não haveria opção melhor do que La Peste. Título de uma das obras mais conhecidas do franco-argelino Albert Camus, Prêmio Nobel de literatura de 1957, o romance publicado pela primeira vez uma década antes foi lembrado por leitores de todo o mundo assim que o novo coronavírus se alastrou pelos continentes. A história da luta dos habitantes de Orã, na Argélia, diante de uma doença altamente letal, tornou-se bestseller nas primeiras semanas de março deste ano em países como China e França.

Infelizmente, as notícias de boas vendas de livros tornaram-se praticamente inexistente desde o anúncio de quarentenas em países com crescentes números de casos da Covid-19. O isolamento social é medida imprescindível para combater a propagação do vírus e com ela as atividades não essenciais são suspensas até a normalização da situação.

Efeito em cadeia

Com o aumento vertiginoso no número de infectados e mortos no primeiro mês de 2020 na China, onde a mutação da doença foi detectada na cidade de Wuhan em dezembro do ano passado, surgiram as primeiras matérias prevendo atrasos na impressão e envio de livros de diferentes editoras, particularmente europeias. O serviço gráfico oferecido pelo país asiático é em geral muito barato o que torna a impressão na China uma escolha recorrente entre casas editoriais que trabalham com grandes tiragens.

O impacto ocorreu não somente a nível externo, como também a nível interno, pois ainda que o lockdown não tenha sido decretado em todo o país nas mesmas proporções encontradas na região onde se encontra Wuhan, foi limitada a circulação de pessoas, produtos e insumos. Porém, apesar das dificuldades surgidas por causa do novo coronavírus, talvez ele não seja nem mesmo o mais preocupante problema do mercado editorial chinês.

A tradutora Na Zhang afirmou recentemente que a pandemia pode ser a gota d’água no processo contínuo de desgaste do mercado editorial de seu país, cenário muito anterior ao caos sanitário dos últimos meses. Os profissionais do livro na China sofrem com o intenso controle exercido pelo governo central sobre o que podem ou não publicar, seja de autores nacionais ou obras traduzidas. Além disso, as vendas online, principalmente pelo site Alibaba, vem afetando negativamente o faturamento das livrarias ao ponto de várias fecharem as portas.

“Pequim em Coma” de Ma Jian conta a história de um rapaz em coma após ser atingindo por um tiro na cabeça após os protestos da Praça da Paz Celestial (Crédito da Foto: Carolina Rocha)

Centro editorial e atual epicentro da Covid-19

 Nos Estados Unidos, atual epicentro da doença, a gigante Amazon avisou por meio de comunicado que no momento a entrega de livros não é sua prioridade. A decisão promete causar queda representativa nas compras online de livros impressos, piorando assim o horizonte financeiro das editoras e de todos os profissionais envolvidos na cadeia produtiva do livro no país.

A Associação Americana de Editores (AAP, em inglês) informou em seu site oficial as ações tomadas por algumas de suas editoras associadas para minimizar a extensão dos danos e manter presença na vida dos consumidores. Conhecidos nomes do mercado universitário de livros, como SAGE Publishing Research, Elsevier, Oxford University Press, Wiley e Cambridge University Press liberaram acesso para revistas científicas e capítulos de livros que versam sobre assuntos relacionados ao coronavírus e pandemias.

Outra das ações tomadas por editoras estadunidenses e listada no site da AAP vem de editoras educacionais, em sua maioria possuidoras de plataformas virtuais de aprendizado pagas. Elas ofereceram login gratuito ou com desconto em seus ambientes virtuais de educação para alunos e professores do sistema básico de ensino durante o período de interrupção das aulas nos EUA. Como o ensino em casa (homescholing) é permitido no país, a decisão pode ter como efeito atrair clientes pagantes no período pós-pandemia.

Em Nova York, cidade que concentra o maior número de casos de Covid-19 e de óbitos pela doença no norte do continente americano, o BookExpo foi suspenso. O mais importante encontro anual de editores dos EUA ocorreria num centro de convenções atualmente adaptado para receber vítimas do novo coronavírus.

Um dos desafios com os quais escritores e editores terão que lidar após a hecatombe será sobre a melhor data para lançamentos de novos volumes. O consenso entre os profissionais do livro estadunidenses é de que lançar volumes em plena campanha presidencial é um tiro no pé, pois as atenções da mídia estão voltadas para as eleições, que nos EUA ocorrerão no dia três de novembro, caso não haja novas reviravoltas. Se retomarem suas atividades de lançamentos assim que a pandemia acabar (projeções afirmam decréscimo no número de casos no início do segundo semestre), as editoras podem não vender; por outro lado, se postergarem para depois das votações, os prejuízos se acumularão ainda mais.

Novos golpes no mercado brasileiro de livros

Os brasileiros têm assistido ao bate cabeças entre integrantes do próprio Governo Federal durante o gerenciamento da atual crise na saúde. Não encontrando sensatez nas recomendações presidenciais, os governadores e prefeitos resolveram agir por suas contas adotando a suspensão das atividades laborais não essenciais em seus estados e municípios.

Em entrevista ao site PublishNews, Ângelo Xavier, presidente da Associação Brasileira de Editores e Produtores de Conteúdos e Tecnologia Educacional (Abralivros) e diretor geral de educação do Grupo Santillana no Brasil citou o confisco de dinheiro no governo Collor de Mello, em 1992, como a situação mais próxima à vivida hoje com a Covid-19, que é pior. Xavier ainda falou sobre como a decisão unilateral do Governo acerca do fracionamento do pagamento das compras federais de livros didáticos dificulta a organização orçamentária das editoras educacionais do país.

O fechamento de comércios de livros, como os encontrados em shoppings, livrarias de bairro e bancas de revistas diminuiu drasticamente as vendas de livros impressos no Brasil. Somando-se a isso, a Livraria Cultura, uma das maiores do país, em decisão também unilateral informou no dia 24 de março que atrasará por tempo indeterminado os pagamentos das editoras. Mais de uma centena de editoras independentes assinaram uma carta pública em protesto pela falta de diálogo.

Várias editoras brasileiras de quadrinhos reportaram ao site Universo HQ mudanças em seus cronogramas por conta do atraso em impressões de revistas e livros. Elas também frearam a compra de direitos de obras estrangeiras, bem como os acordos de publicação com autores nacionais. As vendas online são uma alternativa, no entanto o aumento de pedidos pela internet de inúmeros produtos tem como consequência o atraso nas entregas pelos Correios.

Opções à distância

Diante da necessidade do distanciamento social, a opção para continuação das vendas é principalmente o e-commerce tanto de livros físicos, como de e-books. Ainda não há dados concretos sobre o número das vendas de livros digitais no Brasil desde o primeiro caso de Covid-19 no país, mas com a diminuição dos funcionários ativos nos Correios a expectativa é de aumento, horizonte projetado também para os audiolivros.

Autores e editoras têm investido pesado no marketing digital, organizando frequentes lives com escritores e outros profissionais do livro, sorteios, concedendo descontos e até mesmo liberando para download grátis algumas de suas publicações. A Ubu, fundada por editoras remanescentes da Cosac Naify, divulgou em suas redes sociais descontos, frete grátis para as compras efetuadas por moradores da capital paulista, sendo que as entregas serão realizadas todas às sextas-feiras. Além das ações supracitadas, a Ubu Editora adotou uma que expande o escopo dos grupos contemplados: 10% do valor de cada livro vendido será repassado aos entregadores (essa porcentagem é à parte do pagamento pelo serviço prestado).

Já a Editora Carambaia criou um clube de leitura online no qual os leitores escolhem por votação qual obra de seu catálogo será debatida no mês. Iniciativa similar teve a Dublinense/Não editora com o “Livro Terapia”, no qual os leitores discutem por grupo de whatsapp sobre literatura e assuntos afins.

A mineira Editora Âyiné abraçou campanha internacional de suporte e divulgação de livrarias independentes por todo o território nacional. Em suas redes sociais, eles compartilham fotografias e informações sobre livrarias do país, incentivando seu público a comprar por elas e dessa maneiras mantê-las vivas.

*É  graduanda do curso de Letras Português/Inglês da Universidade Federal de Sergipe e colaboradora deste site

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