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Plaquetes: uma alternativa para publicação impressa

Plaquetes de autores sergipanos (Crédito da foto: Natalia Severo)

Por Ana Paula Rocha*

Contar a história das publicações impressas no Brasil é falar sobre como uma metrópole imperial censurou e limitou, por anos a fio, a circulação de informação e literatura em seus domínios por saber os perigos que elas representavam à manutenção de seu poder monárquico. É também explorar as saídas inteligentes que editores e autores encontraram para fazer os livros chegarem às mãos dos leitores.

A chamada prensa de tipos móveis foi criada no século XV pelo alemão Johannes Gutenberg, mas só chegou ao Brasil no século XIX, durante uma situação no mínimo inusitada. Fugindo de Napoleão Bonaparte, a família real portuguesa desembarcou em Salvador em janeiro de 1808. De lá, o príncipe regente Dom João VI e sua enorme comitiva seguiram para o Rio de Janeiro, onde só aportaram na primeira semana de março. Daquele momento em diante muita coisa mudaria na maior colônia portuguesa.

Nas embarcações da realeza lusitana estavam os cerca de 60 mil volumes que integravam a Biblioteca Real, além de um objeto importantíssimo: uma prensa. De colônia, o Brasil passou a ser sede da corte e com isso vieram avanços fundamentais para o desenvolvimento cultural do país. Foram iniciadas as atividades da Impressão Régia, houve a fundação de instituições de ensino, do Banco do Brasil, do Museu Nacional, dentre outros órgãos. Mesmo assim, o consumo de livros na então capital do império era pequeno, pois os preços eram altos e a taxa de alfabetização da população era ínfima. Na obra O Livro no Brasil: sua história (primeira edição de 1982), o pesquisador inglês Laurence Hallewell enfatiza que no ano da chegada da corte portuguesa à então colônia haviam apenas duas livrarias na cidade do Rio. Em 1816, o número aumentara para doze livrarias, sendo que “Muitas delas, evidentemente, eram estabelecimentos paupérrimos”.

O que esse breve resumo do começo oficial da produção editorial em solo brasileiro evidencia é que, infelizmente, trabalhar no setor livreiro no país nunca foi das atividades mais fáceis. Contudo, a criatividade e insistência tupiniquim sempre mostraram-se proporcionais às dificuldades. Veja o exemplo dos livros de cordel, tão comuns nas feiras da região Nordeste: em edições artesanais, de fácil impressão, o cordel tem boa circulação, pois seu formato permite um preço acessível. Todo um grupo de escritores brasileiros, destacadamente poetas, ficou conhecido durante os anos de 1970, como “Geração Mimeógrafo”,  devido ao uso da máquina homônima para fazer cópias de seus pequenos volumes de escritos, muitos deles distribuídos gratuitamente. Os fanzines, bastante populares principalmente nas décadas de 1970 e 1980 no ritmo dos movimentos de contracultura e da filosofia do “faça você mesmo”, também possuem esse formato simples, o que nunca significou menor qualidade gráfica.

Não à toa, muitos editores independentes ou de pequenas casas editorias têm voltado seus olhos para formatos menores, similares ao cordel, e que podem ser montados total ou parcialmente de modo manual, assim como facilmente vendidos diretamente ao leitor por meio de seus sites, sem a intermediação de distribuidores. Popularizadas no século XIX por simbolistas franceses do peso de Rimbaud, Verlaine e Baudelaire, as plaquetes – ou plaquetas, como preferem alguns – têm conquistado maior espaço não só entre editores, como também entre escritores autopublicados e leitores.

Plaquetes, para que te quero!

“Cordões” é uma série de cordéis publicada pela treme~terra (Crédito da foto: Luís Matheus Brito)

A recepção entre os leitores tem sido tão positiva que surgiram novas editoras e selos dedicados exclusivamente às plaquetes ou que adotaram este formato para algumas de suas publicações. O selo treme~terra, fundado em 2016 por Camila Hion e Rodrigo Lobo, possui atualmente vinte e seis plaquetes em seu catálogo. Em entrevista para o Bangalô Cult (confira a entrevista aqui), os editores explicaram que o formato passou a figurar no treme~terra com a série de zines Quem é a bola? que aborda o futebol da perspectiva de filósofos, poetas e outros artistas convidados pelo selo. O design dos números da série é profundamente inspirado nas revistas de esportes de tamanho e preço reduzidos.  Em seguida veio Cordões, série de ensaios de autores nordestinos. “A plaquete é o formato ideal para lidar com o precário – não se acomodando dentro dele, mas assumindo, de modo criativo, as limitações que nos são impostas, tornando a sua simplicidade uma forma de elegância” afirmam Camila e Rodrigo.

Outras editoras pensaram em projetos que pudessem contemplar plaquetes conjuntamente com o formato e conceito mais tradicional de livro. É o caso da N-1 Edições com a série de cordéis Caixa Pandemia. O Pandemia consiste em doze livretos de não ficção que discutem assuntos como antropologia, violência, feminismo e política. Eles podem ser adquiridos por meio de assinatura com validade de um ano, sendo que a assinatura do tipo A combina quatro livros do catálogo da editora mais os doze cordéis, e a do tipo B entrega doze livros mais a dúzia de cordéis. O preço é salgado, mas isso só enfatiza o fato de que há plaquetes para todos os gostos – e bolsos. A exemplo, a Editora Primata montou a Coleção Plaquetas, com oito volumes de literatura, todos eles com o mesmo valor (R$ 15).

Cordéis integrantes da Caixa Pandemia, N-1 Edições (Fonte: site N-1 Edições)

Trabalhando principalmente com ensaio, poesia, prosa e fotografia, a mineira Edições Chão de Feira foi mais além ao disponibilizar para download gratuito dezenas de plaquetes da coleção Cadernos de Leitura. Assim como a N-1 Edições e a Editora Primata, a Chão de Feira também mantém em seu catálogo livros de formato mais tradicional.

A nosotros, editorial, com publicações que entrelaçam poesia, dramaturgia e América Latina “nasceu depois de algumas experiências ruins com o mercado editorial brasileiro”, como destacou em entrevista à Revista Crioula a poeta, editora e tradutora Lubi Prates. Lubi é autora da plaquete trilíngue (português, inglês e espanhol) De lá/Daqui, publicada pela nosotros, da qual é sócia-fundadora com mais cinco mulheres. Outras plaquetes da editora são Marco Zero, da Carla Kinzo; As curvas negras da terra, de Francesca Cricelli e O amor era um jogo instável, de Nurit Kasztelán, além de outros títulos.

Entre os sergipanos, Luís Matheus Brito lançou de forma independente no começo deste ano a plaquete de poesia No que se seguiu, seleção de sete poemas. Sobre autopublicação neste formato, Luís Matheus diz que “a meu ver, este é o termo mais adequado e honesto para uma publicação com 30 páginas de 10 x 14 centímetros e sem capa dura [dimensões de sua plaquete]. É o meu primeiro trabalho literário, logo é um teste para a construção de público leitor”. A diagramação de No que se seguiu foi feita pelo próprio autor e a impressão realizada em uma gráfica. Para seus próximos trabalhos, Luís Matheus pretende incorporar processos artesanais de montagem. “Mesmo um material modesto pode ser uma intervenção cultural, especialmente em Sergipe, onde a bibliodiversidade é miúda”, afirma.

Pedro Bomba, atualmente radicado em Minas Gerais, é outro que escolheu a plaquete como formato para seu mais recente volume, seu primeiro de contos. Para quem não sabia nadar foi editado pela recifense Castanha Mecânica, que em sua página no Facebook compartilha vídeos nos quais explica o processo de feitura artesanal de suas publicações.

Da Europa ao Brasil, as plaquetes foram adaptadas, remodelas e disseminadas, provendo respiros no meio editorial do país. Elas contribuem para a democratização do acesso a obras impressas e propõem intervenções artísticas plurais, não raro realizadas coletivamente. O trabalho do leitor é escolher dentre inúmeras opções sempre muito bem-vindas.

*Graduanda do curso de Letras Português/Inglês da Universidade Federal de Sergipe e colaboradora do Bangalô Cult

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