Literatura Livros

Quantas perdas cabem numa vida?

Capa de "O Peso do Pássaro Morto"

Por Marguerite Durrel *

Elizabeth Bishop, em seu famoso poema “A Arte de Perder” demonstra que a vida é constituída de perdas e que estamos sempre perdendo algo, seja objetos, lembranças, sentimentos, pessoas queridas. Por isso, nos adverte, deveríamos perder um pouquinho a cada dia. “Aceite, austero, a chave perdida, a hora gasta bestamente”. Mais adiante, acrescenta, “Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo que eu amo) não muda nada”.

Aceitarmos as inevitáveis perdas de maneira tão estoica, e porque não dizer, fatalista, seria uma demonstração de sabedoria ou de covardia diante das adversidades que enfrentamos no decorrer de nossa existência? Como ser livre num mundo que nos aprisiona com tantas dores e mágoas? Como lidar com os traumas e feridas emocionais? Por que silenciar diante da violência e da opressão?

Esses e outros questionamentos foram me invadindo, à medida que avançava na leitura de “O Peso do Pássaro Morto” (Editora Nós, 2017), romance de estreia, de Aline Bei. O livro foi o vencedor do “Prêmio São Paulo de Literatura 2018” na categoria “Melhor Romance de Autor Estreante com Menos de 40 anos”.

Antes de fazer qualquer apreciação sobre o livro, gostaria de ressaltar o impacto do título. Não sei se vocês levam em consideração aspectos como título ou capa quando estão fazendo aquele trabalho de garimpagem nas livrarias. No meu caso, sim.  Este, por exemplo, foi atração imediata. Apesar de triste, achei-o sonoro e poético.

De imediato fui atraída pela sua apresentação visual. Num primeiro momento, pensei tratar-se de poemas, mas não. Apesar de o livro ser estruturado em forma de verso, trata-se de prosa genuína.

Ainda sobre o aspecto formal, ressalto que a existência de inúmeras metáforas e o apurado trabalho da linguagem que imprimem um ritmo e uma cadência que tornam a leitura ágil e leve, não obstante a elevada carga dramática dos temas abordados.

Arrisco dizer que “O Peso do Pássaro Morto” é um romance de formação, pois acompanhamos as vivências, traumas e dificuldades da protagonista – cujo nome desconhecemos -, da infância à vida adulta, mais precisamente dos 08 aos 52 anos. Cabe ressaltar que os capítulos correspondem às idades da personagem e estão dispostos na capa em duas colunas, uma no campo inferior direito (8, 17, 18, 28, 37, 48) e a outra no canto superior esquerdo (49, 50, 52). É importante observar a mudança da linguagem à medida que a menina se transforma em mulher.

Logo no início da narrativa, aos 08 anos, a personagem terá de lidar com o a morte de sua melhor amiga. Já na juventude, um fato profundamente cruel condicionará toda a sua vida. Esse fato e a forma como lida com ele, irão definir sua relação com o mundo e com as pessoas que lhe estão próximas.

A partir desse ponto, não há como prosseguir sem correr o risco de “entregar” partes preciosas da história, o que poderá diminuir o interesse do leitor, algo que não pretendo. Por isso, fico por aqui, alertando apenas para o fato de que a forma como o livro foi estruturado pode permitir uma leitura ágil e rápida. Mas não se enganem. A história ficará reverberando em sua mente durante um longo tempo, pelo menos foi assim que aconteceu comigo.

*A franco-brasileira é colaboradora (esporádica) do Bangalô Cult desde 2011

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