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VIII Festival Literário de Araxá (Parte I)

Walter Hugo Mãe, Afonso Borges, Cristóvão Tezza e Sérgio Abranches na mesa sobre "Conto: Gênero Maldito ?" (foto: Simone Melo)

Nossa colaboradora, Simone Melo, chegou ontem, pela manhã, à capital das “termas” mineira, para cobrir a 8ª edição do Festival Literário de Araxá (FLIARAXÁ). Já era o segundo dia de evento e, um dos mais aguardados pelo público, que disputou lugares para ouvir figuras como Valter Hugo Mãe, Alice Ruiz, Cristóvão Tezza, Cris Guerra, Leila Ferreira, José Eduardo Agualusa.  Abaixo, um resumo de Simone sobre a primeira palestra da tarde,  do segundo dia do FLIARAXÁ 2019, envolvendo Afonso Borges, Cristóvão Tezza e Valter Hugo Mãe sob a mediação de Sérgio Abranches.

Por Simone Melo*

Uma das palestras mais concorridas do dia, aconteceu às 14h, com o tema “Conto, Gênero Maldito?” e as participações de Afonso Borges, Cristovão Tezza e Valter Hugo Mãe. O debate foi bem interessante, inclusive, pelo que não se disse sobre o conto. Explico: os próprios palestrantes que amam e respeitam o gênero conto, terminaram falando muito sobre o romance, tal a importância deste na literatura brasileira. Valter Hugo Mãe começou falando que o Brasil está num patamar dos grandes países  de escritores contistas, como a Rússia. Basta pegar “O Alienista” de Machado de Assis para comprovar isso. Inclusive, chamou a atenção para o fato de que em Portugal, as editoras não aderem muito à publicação de contos, preferindo a publicação de romances.

Em um determinado momento de sua fala, comparou o conto a uma fragrância, que se tiver uma boa essência, o  irá perdurá por muito tempo na memória do leitor. O interessante do bom conto é que deixa aquele sabor de um texto inacabado e  ficamos com a percepção de que existe algo maior do que está sendo relatado.

Cristóvão Tezza disse que o conto é um gênero difícil e exige muita imaginação. Na opinião do escritor catarinense/paranaense, quando se escreve um conto, acontece um “desperdício” de personagem, porque você imagina-o, delineia-o e quando pensa em desenvolvê-lo, a história acabou. Também chamou atenção para o fato de que, no Brasil, há um uso exuberante do talento literário nessa área de contista e também cita Machado, dizendo que basta reunir 30 contos de Machado e já estamos no topo do padrão literário mundial. Citou também o conterrâneo Dalton Trevisan, como sendo autor do menor conto do mundo.

Tezza, que leu todos os contos de Machado, disse que não encontrou em sua obra, descrição da natureza, estando Machado de Assis apenas preocupado com o comportamento humano. Também chamou a atenção para o fato de no Brasil, existir uma dicotomia na literatura no que diz respeito ao modo de “olhar o país”: a forma rural e a urbana. E isso está ligado a uma perspectiva de olhar de mundo, não necessariamente, que a forma rural, por exemplo, tenha que ser evocada a natureza. José de Alencar seria um escritor do primeiro grupo, enquanto que Machado, seria do segundo.

O mineiro Afonso Borges, que completava a mesa, falou da expressão literária do conto em Minas Gerais. Segundo ele, há um tempo atrás, praticamente todo escritor mineiro era contista e observou a proximidade do conto com a crônica, devido à interferência do jornal, tendo em vista as questões dos temas cotidianos tratados em ambos os gêneros. Nessa seara, citou a produção de Carlos Drummond de Andrade e Murilo Rubião.

Sobre este último, contou uma história curiosa. Disse que numa certa época, quando se encontrava com Murilo Rubião, ele lhe falava sobre o final de um conto e, a cada novo encontro, relatava que havia mudado o final. Afonso começou a ficar angustiado com a “obsessão” de Rubião em terminar suas histórias e tentava evitar encontrá-lo.

Tanto Borges como Tezza falaram que na época da Ditadura Militar – anos de 1960/1970- houve uma produção maior de contos e crônicas que romances. Talvez, porque o único lugar onde poderia se dizer “coisas”, era o jornal. Segundo Borges, o romance foi considerado um gênero maldito nessa época, excetuando escritores que exploravam histórias distópicas como Ignácio de Loyola Brandão, com seu livro “Zero”, que fazia uma crítica muito ácida à ditadura.

Tezza também comentou que nos anos de 1980, a prosa entrou numa espécie de limbo, tendo a poesia ganhado força. A prosa, no Brasil, ressurgiu com força total, na virada do século XX para o XXI. Realidade bem diferente em Portugal. Hugo Mãe explicou que no seu país, não houve recuo na produção de romances na época do governo ditatorial.  Nem antes dos anos de 1970, por conta da produção de José Cardoso Pìres e Agustina Bessa, nem após a ditadura, devido à produção  de José Saramago e Antônio Lobo Antunes com seus romances caudalosos e de sucesso não só nos países lusófonos mas de outras línguas.

*Pedagoga, funcionária pública federal aposentada e colaboradora do Bangalô Cult

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