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VIII Festival Literário de Araxá (Parte III)

Luiz Ruffato mediou a mesa sobre "Narrativas Femininas- Onde Moram Nossos Medos" com Cris Guerra, Carla Madeira, Daniella Zupo e Leila Ferreira (foto: Simone Melo)

Por Simone Melo*

A segunda palestra, de ontem, que conferi, contou com o tema “Narrativas Femininas onde Moram Nossos Medos” com Leila Ferreira, Carla Madeira, Daniella Zupo e  Cris Guerra. A mediação foi feita por Luiz Ruffato.

Luiz Ruffato mediou muito bem a conversa envolvendo as escritoras mineiras, sendo a primeira a falar, Leila Ferreira,  que disse que hoje vivemos com um repertório de medos muito grande e esses medos não possuem “CEP”, com a sensação de um medo difuso, líquido…assustador. Em seguida, Carla Madeira disse que o medo para ela começa nesse lugar de impotência, porque estamos expostos a um cardápio de sofrimento nunca visto, o medo hoje tem uma dimensão tão grande, que estamos perdendo a gradação do mal.

Daniella Zuppo falou que alguns medos moram dentro da gente. Daí, porque Zuppo falou que fez um livro-documentário sobre o seu tratamento contra o câncer de mama.  Foi através desse livro que ela conseguiu administrar esse medo e acredita que nós só precisamos ter coragem para enfrentar nossos medos. “Os meus medos moram debaixo da cama. Todo dia olho para eles e digo: vamos em frente”.

Cris Guerra disse que sempre teve muitos medos, de modo que as experiências que teve do fundo do poço, levaram-na para um lugar de muita vulnerabilidade. Para ela acordar, é um exercício de fé, porque a coragem não é não ter medo, mas você estar conectado com o coração. E citou Marguerite Youcenar: “nada  reaproxima tanto o ser humano como o fato de sentirem medos juntos”.

Ruffato perguntou  para as participantes sobre a questão da banalização do mal nos dias atuais. Daí, que Leila Ferreira disse ficar indignada com a quantidade dos medos das pessoas de estarem fora de um padrão- medo de engordar, medo de envelhecer- e lembrou, que quando era pequena e estava triste por alguma razão, a mãe dizia para ela comer goiabada. “Comer era algo prazeroso, algo que diminuía a dor. Hoje, não comer “virou”  um sofrimento”. Segundo a escritora araxaense, o antídoto para isso é a conversa. “Se a gente perder a capacidade de se colocar no lugar do outro, aí sim, é para ter muito medo e a arte tem um papel muito importante nisso, já que tem um poder de particularizar e a partir da particularização, acabamos criando identificação e laços com o outro”.

Na opinião de Daniella Zupo, estamos nos meios sociais para construirmos avatares e não para escutar o outro.  Inclusive, esse comentário, suscitou Luiz Ruffato a fazer um questionamento sobre a epidemia de depressão e suicídio. Até que ponto, essas epidemias não estão diretamente ligadas à questão dos medos ? Ele até comentou que, para ele, as pessoas estão se alienando dos seus medos e isso pode facilitar o aumento dessas doenças.

Leila Ferreira disse que convive há mais de 30 anos com Síndrome de Pânico e aí citou o escritor mineiro Wander Piroli que  disse certa vez, que “era um otimista em pânico”. Em seguida, Daniella Zupo falou sobre o mergulho no mundo irreal, que acredita ter uma conexão com o aumento da depressão. Essa coisa das pessoas ficarem o tempo todo se expondo nas mídias, mostrando só que é muito feliz, isso é o que Ferreira chama de ‘mergulho no mundo irreal’.

Cris Guerra disse que o grande remédio dela para o medo é o humor. E contou o seguinte exemplo. Num determinado momento de sua vida, ela tinha muito desejo de engravidar e não engravidava. Quando via uma mulher grávida, tinha tanto ódio, que tinha vontade de pegar o carro e atropelar as grávidas. Depois que ela engravidou, esse pensamento se dissipou. Passou-se um tempo e seu marido morreu. Aí, o ódio passou a ser com relação às mulheres que tinham maridos. Ela decidiu vender o carro, passou dois anos sem automóvel e a ideia do atropelamento dissipou-se.

Luiz Ruffato finalizou a mediação, perguntando às escritoras, qual o medo que elas tinham com relação às próximas publicações. Cris Guerra, com seu humor peculiar, disse que está preparando um livro de crônicas, com textos engraçados. Seu medo consiste em o público não achar graça nas suas crônicas. Daniella Zupo, que se considera mais jornalista que escritora, tem medo da recepção do público para com seu segundo livro, já que o primeiro- “Amanhã Hoje é Ontem”- foi um sucesso de vendas.

Carla Madeira disse que seu medo consiste em como fazer para que leitores privilegiados, como Ruffato, leia o seu segundo livro. Já Leila Ferreira disse que seu grande medo é como enfrentar a situação atual no país. E fez uma citação: ” pra mim, fé é primeiro colocar o pé, pensando que depois Deus vai colocar o chão”. Ela entende que nós temos que tourear nossos medos.  Temos que lidar com o medo no varejo.

*Pedagoga, funcionária pública federal aposentada e colaboradora do Bangalô Cult

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